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Registro de autoridade

O Pasquim

  • Entidade coletiva

Jornal semanal fundado no Rio de Janeiro, sua primeira edição data do dia 26 de junho de 1969. Fez parte da chamada imprensa alternativa, ou seja, uma imprensa de natureza basicamente política que visava à manifestação de setores sem acesso à imprensa convencional.

Após o golpe militar de 1964, surgiram muitas publicações com projetos alternativos, seja como revista — como é o caso de Pif-Paf criada por Millôr Fernandes em maio de 1964 e que tinha sido anteriormente um suplemento da revista O Cruzeiro — seja como suplemento de jornais e revistas, como Cartum JS e O Centavo, ambos criados por Ziraldo para o Jornal dos Sports e para O Cruzeiro, respectivamente. Essas publicações, mesmo efêmeras, abriram mais espaços para os humoristas. Esses profissionais, contudo, ainda sofriam com a censura interna dos órgãos, o que impedia a publicação de todos os seus trabalhos.

Em 13 de dezembro de 1968, foi editado o Ato Institucional nº 5 que eliminou diversas garantias constitucionais. Com isso, a necessidade de um espaço de oposição para humoristas e jornalistas impôs-se de forma mais urgente. O grupo que criaria O Pasquim inicialmente pensou em utilizar uma revista já existente chamada Carapuça, lançada em agosto de 1968 pelo jornalista Sérgio Porto. Com sua morte realizaram-se algumas reuniões para decidir a continuidade da revista ou a criação de um jornal, proposta defendida por Jaguar. Participaram desses encontros os fundadores do novo jornal, O Pasquim: Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Carlos Prosperi, Claudius, Carlos Magaldi e Murilo Reis. Do seu lançamento até outubro de 1970, o jornal foi dirigido por Tarso de Castro. Segundo o jornalista Bernardo Kucinsky, O Pasquim foi uma sociedade por cotas instável que mudava a composição acionária a cada crise.

O Pasquim inspirou-se em publicações da chamada contracultura norte-americana (principalmente no jornal underground Village Voice, de 1955) e divulgou o pensamento existencialista sobretudo através da coluna “Udigrudi” de Luís Carlos Maciel. Misturava política, comportamento e crítica social. Tinha como alvos principais a ditadura militar, o moralismo da classe média e a grande imprensa. Desde o princípio contou com a colaboração e adesão de humoristas, jornalistas e intelectuais, como Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Luís Carlos Maciel, entre outros.

Caracterizou-se pela utilização do humor como forma de contestação e pelo uso de uma linguagem coloquial que agradou ao grande público, chegando, já em 1969, à tiragem de duzentos mil exemplares. Outra importante característica do jornal eram as entrevistas, com as quais inovou o jornalismo brasileiro ao transcrevê-las como uma longa conversa, sem copidesque. As entrevistas abriam espaços para personalidades contrárias ao regime militar como, por exemplo, d. Hélder Câmara a quem foi dedicada a capa da edição nº 40, de abril de 1970. Outras vezes o jornal trazia revelações como a feita por Ibrahim Sued no número de 26 de junho de 1969, sobre a escolha do futuro presidente, general Emílio Garrastazu Médici.

Em junho de 1970, iniciou-se a censura prévia a O Pasquim. Ainda assim, porém, a equipe conseguia contornar os censores e aprovar algumas matérias. Essa oposição sistemática do jornal, que atingia um grande público, incomodou o regime militar. Em 1º de novembro, grande parte da equipe do jornal foi presa pelo DOI-CODI. Os que não foram presos — Marta Alencar, Millôr Fernandes, Henfil e Miguel Paiva — continuaram editando O Pasquim com a ajuda de jornalistas e artistas que enviavam colaborações para a redação. Nessa ocasião, Millôr Fernandes chegou a redigir artigos que publicou com a assinatura de colegas presos, enquanto Henfil desenhou como Jaguar. Mesmo assim, a vendagem do jornal caiu.

A prisão terminou em janeiro de 1971. Dessa data até setembro de 1972, Millôr Fernandes assumiu a direção do jornal, enquanto Henfil, Ziraldo, Ivan Lessa e Jaguar o produziam. A principal preocupação, nesse momento, era o saneamento das dívidas, resultado da má administração anterior. A recuperação financeira de O Pasquim coube ao empresário Fernando Gasparian. Mudou-se então a razão social para Codecri e iniciou-se a publicação de livros. Em 24 de março de 1975, foi extinta a censura prévia ao jornal e até fins dessa década as principais temáticas de O Pasquim foram as campanhas contra a carestia e pela anistia aos condenados por crimes políticos, o que permitiria o retorno dos exilados, a libertação dos presos políticos e a livre circulação dos clandestinos.

No início da década de 1980, com a abertura política, a redemocratização e o pluripartidarismo, a ditadura militar deixou de ser o único alvo dos colaboradores. Por ocasião das eleições de 1982, ocorreu uma divergência política que separou Ziraldo e Jaguar; o primeiro apoiou o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e a candidatura de Miro Teixeira para o governo do estado do Rio de Janeiro, enquanto Jaguar fez campanha para Leonel Brizola do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Essa divergência foi estampada nas páginas de O Pasquim e determinou a saída de Ziraldo após a vitória de Leonel Brizola.

O jornal passou então por um momento de crise financeira, com a diminuição da tiragem. Havia também uma grande divergência a respeito de qual linha editorial deveria ser privilegiada: alguns preconizavam uma maior radicalização política; outros defendiam uma linha humorística mais descompromissada.

Em agosto de 1988, quando o jornal foi vendido ao empresário João Carlos Rabelo, a tiragem girava em torno dos três mil exemplares em edições quinzenais. Em outubro do mesmo ano, sob nova direção, chegou aos 80 mil exemplares. Foi mantida a veia humorística que sempre caracterizou O Pasquim. Daí em diante, o jornal posicionou-se contra a corrupção, o capitalismo neoliberal e, após as eleições presidenciais de 1989, contra Fernando Collor de Melo e as políticas implementadas por ele no governo.

Segundo João Carlos Rabelo, O Pasquim obtinha seu lucro basicamente das vendas nas bancas, uma vez que não tinha muitos anúncios publicitários, nem de empresas, nem do governo. Com o aumento progressivo da taxa da inflação, tornou-se impraticável o repasse dos custos ao preço final do jornal, agravando a crise de O Pasquim e determinando seu fechamento.

A sua última edição foi de janeiro de 1991.
(Fonte: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/pasquim-o)

Opinião

  • Entidade coletiva

Jornal semanal fundado no Rio de Janeiro em novembro de 1972 e extinto em abril de 1977.

Criação

Opinião nasceu da fusão do projeto de Fernando Gasparian, empresário, ex-membro do Conselho Nacional de Economia e ligado ao governo deposto de João Goulart, e de Raimundo Rodrigues Pereira, jornalista e ex-editor da revista Realidade.

Durante sua permanência em Londres no início da década de 1970, ocasionada por problemas políticos, Gasparian começou a pensar na possibilidade de lançar um jornal quando regressasse ao Brasil, chegando a fazer alguns contatos jornalísticos nesse sentido. De volta ao país ainda num período de profundo fechamento político, durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, Gasparian sentiu seu projeto jornalístico crescer em importância. Nessas circunstâncias, convidou para participar dele Raimundo Pereira, que por sua vez há tempos possuía o projeto de lançar uma publicação independente junto com um grupo de jornalistas.

O convite de Gasparian foi visto como uma boa oportunidade, mas Raimundo Pereira queria ter assegurada a presença da redação em todas as decisões e por isso desejava deter, juntamente com os jornalistas que iriam fazer parte do novo jornal, 49% das ações da empresa. Gasparian não concordou com essa proposta, alegando que não acreditava na possibilidade de sobrevivência de uma empresa que tivesse como donos muitos jornalistas. Entretanto, garantiu que “o fato de ele ter a propriedade jurídica do novo órgão não significava que quisesse ter um jornal em que fosse o dono das idéias”. Assim, “Opinião seria um jornal de propriedade intelectual de todos que o fizessem”.

Dessa forma surgiu Opinião como um semanário independente e amplo, tendo por objetivo constituir-se num veículo de questionamento da realidade brasileira. Partindo dessa proposta, o jornal assumiu “o compromisso com a defesa das liberdades democráticas, sem as quais não há desenvolvimento político; com a defesa da melhor distribuição de rendas, sem a qual não há desenvolvimento social; com a defesa de nosso patrimônio ecológico, sem o qual não há melhoria da qualidade de vida; com a defesa da economia nacional e dos direitos humanos”. A estes compromissos, foi acrescentado o desejo de prestigiar a inteligência brasileira, e a ela foi facultada uma tribuna numa fase em que os grandes órgãos da imprensa fechavam-lhe as portas.

Opinião se estruturou tendo como diretor Fernando Gasparian e como editor Raimundo Pereira, e possuindo um corpo de redatores permanentes e um conselho de colaboradores. Esse conselho de colaboradores se constituiu “mediante a reunião de diversos intelectuais de diversos horizontes políticos em virtude de algo comum a todos, o direito e o dever de defenderem a liberdade de expressão”. Seus membros eram Antônio Calado, Antônio Cândido de Melo e Sousa, Fernando Henrique Cardoso, Millôr Fernandes, Celso Furtado, Paulo Emílio Sales Gomes, Alceu Amoroso Lima, Luciano Martins, Francisco Oliveira, Paul Singer, Francisco Weffort e outros.

Opinião foi lançado em formato de tablóide e com 24 páginas. A parte relativa a assuntos nacionais constituía-se de várias seções que versavam sobre economia, política, educação e artes em geral. A parte dedicada a assuntos internacionais publicava uma edição semanal brasileira do diário francês Le Monde, além de uma seleção de artigos de órgãos de sólida reputação internacional, como Le Nouvel Observateur, The Washington Post, The Guardian, The New York Review of Books e New Statesman.

Assim estruturado, Opinião obteve um enorme sucesso, chegando a atingir em seu terceiro número uma tiragem de 40 mil exemplares.

Atuação

Levar adiante propostas de questionamento e crítica ao governo militar numa conjuntura de grande fechamento político significava enfrentar grandes dificuldades. Assim, já no seu oitavo número, Opinião começou a sofrer censura prévia, tendo sido enviado um censor para sua sede. Essa situação trouxe grandes problemas para o jornal, mas ainda assim sempre era possível passar algumas matérias importantes, graças a alguma possibilidade de diálogo com os censores.

Porém esse esquema de funcionamento da censura em pouco tempo foi substituído por regras mais rígidas. Em abril de 1973, a partir de seu 24º número, Opinião passou a ser censurado em Brasília no gabinete do ministro da Justiça Alfredo Buzaid, o que acarretou grandes transtornos para a feitura do jornal, chegando a ser alterado o dia de sua distribuição de segunda para sexta-feira como uma alternativa para ganhar tempo e impedir que o noticiário ficasse demasiadamente ultrapassado.

Nessas circunstâncias, a direção do jornal apelou ao Tribunal Federal de Recursos, através do advogado Adauto Lúcio Cardoso, impetrando um mandado de segurança contra a censura prévia. Em maio seguinte a causa foi ganha naquele tribunal mas a decisão foi anulada pelo presidente Médici, ao estabelecer “que a censura prévia à imprensa resultava de um despacho presidencial de 1971 baseado no Ato Institucional nº 5 (AI-5), até então secreto”.

O fato de ter impetrado um mandado de segurança serviu para piorar ainda mais as relações do jornal com a censura, que desde então passou a revelar um endurecimento progressivo. Nessa fase, para cada número do jornal publicado era necessário fazer praticamente dois, tão grande era o número de cortes. Paralelamente, Opinião sofria grandes dificuldades financeiras decorrentes não só dos prejuízos acarretados pelas apreensões de edições inteiras, mas também do veto da censura a matérias publicitárias pagas, como anúncios da Petrobras e da Fundação Getulio Vargas.

Nos últimos meses do governo Médici a censura se intensificou ao máximo. Por ocasião da queda do presidente chileno Salvador Allende, em julho de 1973, em função de um golpe militar, não foi possível publicar nada. A censura cortava tudo que falasse sobre o golpe de Estado no Chile, até mesmo a reprodução de artigos publicados em outros jornais. Com essa escalada de cortes, a censura pretendia forçar a redação a recuos cada vez maiores, obrigando-a a produzir matérias cada vez mais brandas para que o jornal pudesse sair.

Nos primeiros meses do governo de Ernesto Geisel, empossado em março de 1974, ocorreram alguns sinais de abertura política. A censura prévia foi retirada de O Estado de S. Paulo, da revista Veja e do semanário humorístico O Pasquim, mas permaneceu em Opinião, no diário carioca Tribuna da Imprensa e em O São Paulo, jornal da arquidiocese paulistana, como um aviso aos outros de que, apesar de recém-abolida, poderia voltar a qualquer momento.

Nos meses seguintes chegou-se a acreditar que a censura ia ser retirada do Opinião, e de fato, em comparação com os últimos meses do governo Médici, ocorreu um considerável abrandamento, passando a haver mais liberdade para tratar de alguns assuntos. Esse fato possibilitou uma elevação das vendas do jornal, que haviam caído muito no auge da censura.

Com novas questões surgindo no processo político, cujo relativo abrandamento permitia a discussão de outros assuntos que não a pura denúncia do regime por todas as tendências oposicionistas em uníssono, começaram a aparecer divergências na maneira de orientar a linha do Opinião. Em fevereiro de 1975, as discordâncias entre Raimundo Pereira, que queria um jornal mais combativo, apoiando as oposições ditas autênticas, e Fernando Gasparian, que preferia manter a linha geral centrada nos pontos comuns a todas as tendências oposicionistas, atingiram um ponto crítico. Nesse momento o editor do jornal, juntamente com toda sua equipe, deixou Opinião, sob a alegação de que a redação não tinha mais “poder de decisão para garantir a observação de suas idéias”. Alguns meses mais tarde, a maior parte dessa equipe de jornalistas, comandada por Raimundo Pereira, fundaria em São Paulo o semanário Movimento. Outra parte, voltada para questões de ordem cultural mais ampla, sem uma estrita preocupação com a política institucional partidária, desligou-se do grupo. Em substituição a Raimundo Pereira, tornou-se editor de Opinião o jornalista Argemiro Ferreira.

Nessa nova fase, ainda que contando com uma pequena liberalização da censura, o jornal enfrentou dificuldades, tendo que reorganizar toda a sua equipe de redação. A linha editorial tornou-se politicamente mais branda, como queria Gasparian. O jornal procurava, assim, integrar-se de certo modo ao momento político, sem questionar a multiplicidade de tendências oposicionistas, tentando colocar-se como um veículo das reivindicações mais gerais no período da chamada “dissensão”. A partir de agosto de 1975, no entanto, a censura piorou novamente.

Em abril de 1976 novos boatos surgiram sobre o fim da censura prévia ao Opinião. Pequenos testes feitos pela redação reforçavam essa expectativa. Depois que o jornal voltava de Brasília com os cortes, eram introduzidas algumas matérias que não tinham sido mandadas para a censura e outras que a censura havia cortado.

O caso mais exemplar desse tipo de procedimento foi a publicação de uma carta dirigida pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), Marcos Viana, ao ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Veloso. No primeiro semestre de 1976 a grande imprensa estava em plena campanha contra o estatismo e a carta sugeria uma fórmula de desestatização da economia extremamente favorável a alguns grupos econômicos. Sua proposta era que “as empresas controladas pelo estado, inclusive através do BNDE, fossem vendidas para grupos afortunados que eram citados um a um. A forma de pagamento sugerida era que a empresa adquirida fosse paga com seu próprio lucro. Se a empresa não desse lucro não pagava nunca”.

Opinião publicou toda a história sem a ter enviado à censura. Houve uma enorme repercussão e até o deputado José Bonifácio, líder do governo, comentou a reportagem na Câmara, colocando-se contra a fórmula de desestatização apresentada. A publicação serviu para recuperar a credibilidade do jornal, abalada tanto pela censura como pelas modificações internas.

Novamente, em julho de 1976, por ocasião da reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Brasília, o jornal desobedeceu à censura. Várias matérias vetadas foram publicadas, permitindo que fosse dada ampla cobertura ao evento.

Ainda nesse mesmo mês, Opinião passou por novas modificações internas, ocasionadas pela saída de Argemiro Ferreira do cargo de editor e pelo controle mais estreito de Gasparian sobre o jornal.

Paralelamente, o segundo semestre de 1976 inaugurava uma nova etapa de recrudescimento da censura. Em fins de julho policiais apreenderam a edição de nº 195 por conter matérias não autorizadas pela censura. Nos meses seguintes a situação se agravou e o jornal não podia publicar praticamente nada, em muitos casos nem transcrever matérias que os demais órgãos da imprensa publicavam livremente.

As dificuldades de Opinião tornaram-se ainda maiores em virtude das divergências internas existentes entre Gasparian e a redação no tocante à orientação do jornal. Finalmente, foi praticado um atentado à bomba contra o jornal na madrugada de 15 de novembro de 1976, promovido por uma associação terrorista intitulada Aliança Anticomunista Brasileira. Nos meses seguintes o cerco da censura fechou-se ainda mais, tendo sido censurada até a publicação de trechos de discursos pronunciados pelo presidente da República Ernesto Geisel e de matérias já publicadas em outros órgãos.

Nessas circunstâncias, e com o agravamento das discussões internas, a direção do jornal começou a pensar que seria mais útil suspender sua circulação do que publicar um jornal que pouco podia dizer em comparação com a grande maioria que desfrutava de maior liberdade. Essa idéia foi amadurecendo e em abril de 1977, quando foi lançado o nº 230, foi publicado um editorial rompendo com a censura. O texto afirmava que em outras épocas publicar o jornal com censura tinha tido sentido, mas àquela altura, quando quase todos os órgãos de imprensa desfrutavam de considerável liberdade, não havia mais justificativa para tal.

Assim, o nº 231 foi totalmente feito sem censura, mas foi imediatamente apreendido pela Polícia Federal. Desde então Opinião suspendeu sua circulação.
(Fonte: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/opiniao)

Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre Ltda

  • Entidade coletiva

Diferentemente dos jornais anteriores, o Coojornal não tinha ligações orgânicas com os grupos políticos da época. Era uma experiência de jornalistas gaúchos — muitos deles egressos da Folha da Manhã, outros recém-saídos das escolas de comunicação do Rio Grande do Sul — que visavam a um jornalismo crítico, independente e livre, inspirado no modelo do Il Giornale italiano.

Em agosto de 1975 foi fundada a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre Ltda. com o objetivo de prestar serviços jornalísticos e de editar seu próprio jornal. A cooperativa começou produzindo jornais para diversos sindicatos e associações e, finalmente, em outubro de 1976, lançou sua própria publicação: o Coojornal, tendo Elmar Bones como editor e Osmar Trindade como secretário.

O forte de Coojornal eram as grandes reportagens políticas, de cunho documentário, “reportagens-denúncias”. Muitas delas foram furos jornalísticos e lhe valeram prisões e processos. Uma das mais importantes foi publicada em julho de 1977 e apresentava o primeiro levantamento exaustivo do número de punidos (demitidos, cassados e exilados) pelos atos institucionais do regime militar. Outra reportagem de impacto, em março de 1980, provocou a prisão de alguns jornalistas por 17 dias. O Coojornal comprou informações sigilosas do Exército e publicou um relatório do general José Canavarro Pereira sobre a guerrilha do vale do Ribeira, comandada por Carlos Lamarca (1970). O jornal foi processado pelo Exército pela divulgação de documentos secretos; os jornalistas foram presos e condenados, mas soltos por habeas-corpus.

Os principais problemas enfrentados pelo Coojornal teriam decorrido de sua principal característica: a forma cooperativa de produção dentro de um mercado de competição capitalista. Assim, os principais conflitos giravam em torno das formas de pagamento aos jornalistas — opondo “veteranos”, “jovens” freelances. Além disso, as pressões políticas sofridas pelo jornal terminaram por assustar os anunciantes, que retiraram seus produtos. Para o Coojornal, que, ao contrário da maioria dos jornais alternativos, tinha sua receita baseada na publicidade, isto foi um duro golpe. Em março de 1983 saiu a sua última edição.
(Fonte: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/imprensa-alternativa)

Em Tempo

  • Entidade coletiva

Mais do que todos os outros jornais citados anteriormente, Em Tempo era, explicitamente, uma frente de organizações de esquerda. Dele participavam militantes do MEP (Movimento de Emancipação do Proletariado), da APML (Ação Popular Marxista Leninista), do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), da Polop (Política Operária) e de diferentes grupos de inspiração trotskista, tais como a Libelu (Liberdade e Luta), o grupo mineiro Centelha e o grupo gaúcho Nova Proposta. Estes dois últimos vieram a se juntar constituindo a organização Democracia Socialista (DS). Além dos militantes organizados ou influenciados por estas organizações, o jornal reunia ainda muitos jornalistas independentes egressos de experiências anteriores na imprensa alternativa. Em comum entre todas estas tendências, a perspectiva crítica em relação aos dois partidos comunistas mais tradicionais do Brasil (o PCB e o PCdoB) e à tática por eles preconizada de uma etapa democrático-burguesa (ou democrático-nacional) para a revolução brasileira. Em oposição a esta visão considerada “etapista”, Em Tempo pretendia reunir partidos, organizações e militantes que acreditassem na possibilidade de uma imediata revolução socialista no país.

O primeiro número foi lançado em São Paulo em janeiro de 1978 mas, antes dele, saíram três exemplares experimentais no final de 1977. No princípio teve como diretores Antônio de Pádua Prado Jr., Bernardo Kucinski, Jorge Batista, Roberto Aires, Tibério Canuto. E como editores: José Arrabal, Maria Rita Kehl, Sérgio Mateus e Carlos Tibúrcio. Tinha um vasto conselho editorial e administrativo do qual faziam parte, entre outros, Eder Sader, Sérgio Alli, Flávio Aguiar, Robson Aires, Flávio Andrade etc. Entre os redatores, José Veiga, Elvira Oliveira, Virgínia Pinheiro, Guido Mantega.

A luta política acirrada entre as diversas tendências e organizações que o compunham foi uma constante na dinâmica do jornal, que tinha seus impasses decididos em assembléias. A partir de 1979, Em Tempo também incorporou muitos exilados políticos que retornavam ao país (trazendo com eles novas tendências políticas como o grupo dos “autonomistas”, que propunham a autonomia do movimento operário em relação aos partidos políticos, mesmo aos de esquerda).

Como um jornal de frente, Em Tempo traduziu, em suas páginas, alguns dos principais conflitos entre as diversas correntes da esquerda brasileira. Mas não conseguiu manter este caráter plural durante muito tempo. A agudização destes conflitos levou a sucessivas crises que, paulatinamente, foram excluindo do jornal a variada gama de correntes políticas que o compunham. No início de 1980 Em Tempo tinha-se tornado um jornal de partido. Era um órgão da DS — o grupo trotskista Democracia Socialista.
(Fonte: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/imprensa-alternativa)

Versus

  • Entidade coletiva

O jornal Versus começou como uma publicação essencialmente cultural, com a proposta, contudo, de entender a cultura como uma “ação política”. Foi lançado em São Paulo, inicialmente como bimestral. Seu diretor responsável era o jornalista gaúcho Marcos Faerman. Entre os participantes: Moacir Amâncio, Elifas Andreatto, Carlos Rangel, João Antônio, Luís Egypto, Cláudio Bojunga, Joca Pereira, Modesto Carone.

A trajetória do jornal aponta para os problemas e dificuldades da delicada relação entre cultura e esquerda. Entre o primeiro número, lançado em outubro de 1975, e o último, editado em outubro de 1979, a história do jornal traduziu a oposição entre, de um lado, intelectuais e jornalistas com projeto de uma publicação cultural, pluralista e inovadora em termos estéticos, e de outro, militantes organizados que viam o jornal como instrumento de luta política. Este confronto terminou por sepultar a publicação.

O jornal trazia grandes artigos e reportagens dedicados ao debate das novas teorias discutidas na Europa, naquela época: em especial as teses de filósofos como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari. Valorizava a estética como manifestação política e a arte como um agente revolucionário. Nesse sentido, Versus procurava inovar, também, em sua apresentação visual. A ilustração, em suas páginas, não pretendia ser apenas o reforço de uma matéria. Ela seria um signo em si própria; algumas vezes, seria a própria matéria.

A América Latina — vivendo, em sua maioria, naqueles anos, sob ditaduras militares — era um dos temas mais importantes do jornal. Ela era vista como uma entidade unificada política e culturalmente. O jornal buscava contribuir para a criação de um sentimento de “latinidade” que marcou certos setores intelectuais e artísticos nos anos 1970. Além disso, foi responsável pela divulgação de inúmeros intelectuais latino-americanos no Brasil, publicando textos não apenas de nomes conhecidos como Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges e Octavio Paz, mas, também, de autores de público mais restrito como Miguel Ángel Asturias, Carlos Fuentes e Ernesto Sábato.

O jornal fugia de uma compreensão da política como essencialmente partidária. Valorizava a política nos temas ligados ao comportamento, ao cotidiano, às relações pessoais, à estética e à sensibilidade. Artigos e reportagens denunciavam a repressão exercida sobres as mulheres, os loucos, os presos.

Nos seus dois primeiros anos de existência, Versus era um jornal vanguardista, entrosado com as novas correntes internacionais, voltado para o debate intelectual e estético e, essencialmente, pluralista. Buscando inovar tanto na forma como no conteúdo — afirmando, inclusive que, em muitos casos, a forma era o próprio conteúdo.

Esta foi a marca do jornal até o final do ano de 1977 — quando houve a entrada, na administração e na redação do jornal, de um contingente significativo de militantes da Convergência Socialista (tendência legal da organização clandestina de inspiração trotskista — Liga Operária). Este fato mudou inteiramente o tom do jornal. Versus passou a ser um jornal político, praticamente o órgão divulgador das posições da Convergência.

Antes desta transformação mais radical, ocorrida em 1977, já havia, no jornal, a presença de militantes políticos e de jornalistas de esquerda, muitos deles com alguma influência trotskista. Tratava-se, contudo, de uma influência teórica e não de uma vinculação orgânica. Versus representava, em seu projeto inicial, um ponto de vista de esquerda de crítica ao stalinismo e ao modelo soviético. Mas a sua transformação em órgão da Convergência Socialista o inseriu no quadro de um discurso mais doutrinário e dogmático. O jornal modificou sua aparência e seu conteúdo e os jornalistas ligados ao projeto inicial terminaram por se retirar. Como um jornal nitidamente político, Versus continuou saindo até meados de 1979, quando deixou de circular.
(Fonte: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/imprensa-alternativa)

Movimento

  • Entidade coletiva

Jornal originário de uma dissidência do Opinião. Um grupo de jornalistas, liderado por Raimundo Pereira, decidiu criar um outro jornal que superasse os problemas mais candentes da publicação anterior. Mais especificamente, o objetivo era ultrapassar, na direção de uma postura política mais definida, a tônica excessivamente intelectual daquele periódico. Movimento nasceu em julho de 1975, em São Paulo, com a proposta explícita de ser um jornal de frente política.

O editor e idealizador do jornal foi Raimundo Rodrigues Pereira. O conselho de redação era composto de Aguinaldo Silva, Elifas Andreatto, Jean-Claude Bernardet, Maurício Azedo, Teodomiro Braga, entre outros. O diretor responsável era Antônio Carlos Ferreira e os editores especiais, além de Raimundo Pereira, eram Bernardo Kucinski e Marcos Gomes.

A partir de seu nascimento, efetivamente, o jornal funcionou como um espaço de reaglutinação de militantes e de grupos políticos. Segundo Bernardo Kucinski, ativistas que saíam da cadeia, antigos militantes que tinham se afastado da luta armada e remanescentes de antigos grupos que se haviam desmantelado se aproximaram do jornal movidos pela possibilidade de uma atividade política legal, não clandestina. Em várias regiões do país organizaram-se sucursais do jornal. Sendo, na verdade, o jornal uma “frente” política, em cada sucursal predominava uma posição diferente, em função da predominância deste ou daquele grupo político.

A linha política e teórica mais ampla do jornal era dada, contudo, pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil). Embora sem vínculos orgânicos, o editor Raimundo Pereira alinhava-se às teses gerais deste partido e sofria grande influência intelectual de um antigo dirigente da organização maoísta APML — o jornalista Duarte Pacheco, na época vivendo na clandestinidade e mais próximo das teses do PCdoB.

Em pouco tempo o conselho editorial do jornal passou a expressar um conflito político interno que se estendia, também, às sucursais regionais: de um lado, os militantes do PCdoB e, de outro, os demais grupos políticos, os jornalistas independentes e os intelectuais de formação acadêmica. As teses do PCdoB referentes à caracterização da sociedade brasileira e, sobretudo, à definição do caráter da revolução no Brasil eram objeto de polêmica entre os grupos políticos da época e dividiam os militantes. Questões como “burguesia nacional”, “feudalismo” e “aliança com empresários” demarcavam campos de profundas divergências dentro do jornal.

Mas não apenas as questões internas dividiam os participantes de Movimento. O choque internacional entre as duas grandes potências comunistas da época — China e URSS — também interferia na crise política interna do jornal, na medida em que o PCdoB aderia, sem reservas, à linha chinesa.

A agudização da crise política dentro do jornal terminou por provocar uma grande crise em abril de 1977, quando jornalistas independentes e militantes de vários grupos políticos se retiraram. Movimento passou então a ser, efetivamente, um jornal que representava os pontos de vista do PCdoB. Mas transformar-se no jornal de um partido não resolveu o problema das divergências internas. Movimento passou a expressar a luta interna do PCdoB — acirrada, na época, pelo processo de avaliação da guerrilha do Araguaia. A total subordinação de Movimento às questões políticas internas do PCdoB terminou por inviabilizar o jornal. Em 1981 uma convenção nacional de trabalhadores do jornal aprovou a proposta de seu editor, Raimundo Pereira, de fechamento da publicação.
(Fonte: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/imprensa-alternativa)

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